Venho de uma família de Consultores de Empresas e como você pode imaginar a vida dos meus pais sempre foi muito corrida. Como consequência, muitas vezes, tinha que me virar sozinha para fazer o que queria. Com 9 anos resolvi fazer Ballet e a escola ficava no final da minha rua. Um local super famoso porém, me explicaram que eu era muito “‘velha” para aquela sala. Como não me senti acolhida acabei saindo depois de um mês. Assim encerrei a minha brilhante carreira de bailarina antes mesmo de começar e acabei entrando na aula de pintura. Fazia quadros em veludo e me lembro de pintar um belíssimo quadro de Nossa Senhora segurando menino Jesus, também pintava vitral espelhado e claro não poderia deixar de fazer vários panos de prato. Ao chegar à adolescência mudei com a minha família para Portugal e a vida foi completamente diferente. Trabalhava muito, estudava muito e tinha muita liberdade para sair à noite, além disso tive a felicidade de morar em uma região de praias belíssimas, o Algarve. Apesar de ter conquistado a minha liberdade, meu pai não gostava muito dessa ideia de chegar sempre tarde em casa. A segurança da família sempre foi sua prioridade. Um dia, em pleno verão, as praias fervendo de gente, os barzinhos e as discotecas no auge, ele me disse: ou você faz um esporte de defesa pessoal, ou não vai mais sair à noite. Você pode imaginar a minha cara de indignação. Como assim? Esporte de luta? Apesar de adorar esporte eu não queria fazer arte marcial, ainda mais “obrigada”. Um pouco contrariada sai à procura de um local... qualquer lugar onde eu pudesse fazer algumas aulas e me livrar logo daquilo para poder fazer o que eu queria. No começo dos anos 90, na minha cidade as opções eram Kickboxer - que estava em alta por causa dos filmes do Van Damme ou Karatê. Kickboxer eu achava muito violento, então escolhi ver uma aula de karatê. Ao final da aula conversei com o professor e quando perguntei qual sapato deveria utilizar, ele respondeu: “Tu não percebeste? Karatê se pratica descalço!” Nesse momento tive a minha primeira lição: fiquei quase uma hora assistindo, mas eu não estava realmente lá, senão teria percebido que as pessoas não usavam sapatos! Essa é uma das causas do estresse: inconformidade entre a mente e o corpo, ou seja, quando a mente quer uma coisa e o corpo outra. Comecei as aulas e o que inicialmente era uma obrigação, acabou tornando-se uma paixão. Fiquei encantada com a filosofia, pelo respeito ao próximo e pela disciplina. A arte marcial nos força a conhecer os nossos limites e nos mostra que eles não podem nos limitar quando decidimos ultrapassá-los. Com o tempo, a autoconfiança era visível e o mais interessante é que isso passou a permear todas as áreas da minha vida. Voltei para o Brasil e o retorno não foi fácil para mim. Minha cabeça estava em Portugal na maior parte do tempo e achar um local para treinar foi essencial. Estava indo tudo bem até que um dia meu novo Sensei se mudou para o Nordeste e não encontrei mais um local dos estilos Shito Ryu ou Shotokan para treinar. Aposentei meu kimono português e minha faixa verde. Segui em outros exercícios: academia, natação, tênis e... por que não a dança? Sempre gostei de dançar. Então um dia aos 35 anos resolvi conhecer uma escola de dança procurando sapateado, contudo a única aula que tinha era Ballet. Assim depois de tantos anos a vida me deu a chance de realizar algo que com 9 anos eu não pude. Hoje sou bailarina e pretendo fazer aulas para sempre. A elegância, força e maestria fazem parte do meu dia-a-dia. Entretanto… a chama do karatê nunca se apagou. Ficou guardada por todos esses anos e aos 42 anos encontrei o lugar perfeito para sonhar com a faixa preta. No ano passado fiz exame para a faixa roxa e quando recebi uma medalha pela troca de faixa, logo imaginei um jeito de homenagear o meu pai. O nosso escritório fica em Pinheiros e está sempre repleto de empresários, pensei então em me vestir de karateca no horário que estivesse cheio, entregar a medalha e fazer uma reverência mostrando a minha gratidão por lá atrás me pedir para escolher uma arte marcial. Fiz exatamente isso e o momento foi extremamente emocionante. Você pode estar se perguntando: Bailarina ou karateca? Ambos trabalham o equilíbrio, a energia, o comprometimento, valores, amizade, autoestima, elegância, postura e tantas outras coisas que não tenho como escolher, os dois já se misturaram dentro de mim. Inclusive, muitas vezes saio do treino de karatê e vou fazer aula de Ballet...de kimono e sapatilha. Lembrei de uma frase que a minha avó sempre me dizia: “Nem sempre vamos fazer tudo o que gostamos, mas podemos gostar de tudo o que fazemos”. A vida me trouxe o que eu queria e muito mais.
Que o meu carinho, minhas palavras e meus pensamentos permaneçam com você.
Thatiana Rhades
Consultora de Empresas & Coach
Whatsapp: +55 11 976.160.133
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